PÁSCOA 2026
Irmãos e irmãs,
Cristo ressuscitou! Feliz Páscoa!
Desde há séculos, a Igreja canta exultante o
acontecimento que é a origem e o fundamento da sua fé: «O Senhor da vida estava
morto / mas agora, vivo, triunfa. / Sabemos e acreditamos: / Cristo ressuscitou
dos mortos: / Ó Rei vitorioso, / tende piedade de nós» (Sequência Pascal).
A Páscoa é uma vitória: da vida sobre a morte, da
luz sobre as trevas, do amor sobre o ódio. Uma vitória a um preço muito alto:
Cristo, o Filho do Deus vivo (cf. Mt 16, 16), teve de morrer,
e morrer numa cruz, depois de ter sofrido uma condenação injusta, de ter sido
ridicularizado e torturado, e de ter derramado todo o seu sangue. Como
verdadeiro Cordeiro imolado, tomou sobre si o pecado do mundo (cf. Jo 1,
29; 1Pe 1, 18-19) e assim nos libertou a todos do domínio do
mal, e conosco também a criação.
Mas como é que Jesus venceu? Com
que força derrotou de uma vez para sempre o antigo Adversário, o Príncipe deste
mundo (cf. Jo 12, 31)? Com que poder ressuscitou dos mortos,
não regressando à vida anterior, mas entrando na vida eterna e abrindo assim,
na sua própria carne, a passagem deste mundo para o Pai?
Esta força, este poder é o próprio Deus, Amor que
cria e gera, Amor fiel até ao fim, Amor que perdoa e resgata.
Cristo, o nosso «Rei vitorioso», travou e venceu a
sua batalha através do abandono confiante à vontade do Pai, ao seu desígnio de
salvação (cf. Mt 26, 42). Assim, percorreu até ao fim o
caminho do diálogo, não com palavras, mas com obras: para nos encontrar a nós,
que estávamos perdidos, fez-se carne; para nos libertar a nós, que éramos
escravos, fez-se escravo; para nos dar vida a nós, mortais, deixou-se matar na
cruz.
A força com que Cristo ressuscitou é completamente
não violenta. É semelhante à de um grão de trigo que, ao decompor-se na terra,
cresce, abre passagem pelas leivas, germina e transforma-se numa espiga
dourada. É ainda mais semelhante à do coração humano que, ferido por uma
ofensa, rejeita o instinto de vingança e, cheio de piedade, reza por quem o
ofendeu.
Irmãos e irmãs, esta é a verdadeira força que traz
a paz à humanidade, porque gera relações respeitosas a todos os níveis: entre
as pessoas, as famílias, os grupos sociais, as nações. Não visa o interesse
particular, mas o bem comum; não pretende impor os próprios planos, mas
contribuir para os conceber e concretizar em conjunto com os outros.
Sim, a ressurreição de Cristo é o princípio da nova
humanidade, é a entrada na verdadeira terra prometida, onde reinam a justiça, a
liberdade e a paz, onde todos se reconhecem irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai
que é Amor, Vida e Luz.
Irmãos e irmãs, com a sua ressurreição, o Senhor
coloca-nos ainda mais intensamente perante o drama da nossa liberdade. Diante
do sepulcro vazio, podemos encher-nos de esperança e admiração, como os
discípulos, ou de medo, como os guardas e os fariseus, obrigados a recorrer à
mentira e ao subterfúgio para não reconhecerem que aquele que fora condenado
tinha realmente ressuscitado (cf. Mt 28, 11-15)!
À luz da Páscoa, deixemo-nos surpreender por
Cristo! Deixemos transformar o nosso coração pelo seu imenso amor por nós! Quem
tem armas nas mãos, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear guerras,
que opte pela paz! Não uma paz conseguida com a força, mas com o diálogo! Não
com a vontade de dominar o outro, mas de o encontrar!
Estamos a habituar-nos à violência, resignamo-nos a
ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas.
Indiferentes às repercussões de ódio e divisão que os conflitos semeiam.
Indiferentes às consequências económicas e sociais que produzem e que todos
sentimos. Há uma “globalização da indiferença” cada vez mais acentuada, para
retomar uma expressão cara ao Papa Francisco, que há um ano, desta lógia,
dirigiu ao mundo as suas últimas palavras, recordando-nos: «Quanto desejo de
morte vemos todos os dias em tantos conflitos que ocorrem em diferentes partes
do mundo!» (Mensagem Urbi et Orbi, 20 de abril de
2025).
A cruz de Cristo recorda-nos sempre o sofrimento e
a dor que envolvem a morte, e o tormento que ela acarreta. Todos temos medo da
morte e, por medo, voltamo-nos para o outro lado, preferimos não olhar. Não
podemos continuar indiferentes! Não podemos resignar-nos ao mal! Santo
Agostinho ensina: «Se tens medo da morte, ama a ressurreição!» (Sermão 124,
4). Amemos também nós a ressurreição, que nos recorda que o mal não é a última
palavra, porque foi derrotado pelo Ressuscitado.
Ele atravessou a morte para nos dar vida e paz:
«Deixo-vos a paz; dou-vos a minha paz. Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la
dou» (Jo 14, 27). A paz que Jesus nos entrega não é aquela que se
limita a silenciar as armas, mas aquela que toca e transforma o coração de cada
um de nós! Convertamo-nos à paz de Cristo! Façamos ouvir o grito de paz que
brota do coração! Por isso, convido todos a unirem-se a mim na vigília de
oração pela paz que celebraremos aqui, na Basílica de São Pedro, no próximo
sábado, 11 de abril.
Neste dia de festa, abandonemos toda a vontade de
contendas, domínio e poder, e imploremos ao Senhor que conceda a sua paz ao
mundo atormentado pelas guerras e marcado pelo ódio e pela indiferença, que nos
fazem sentir impotentes perante o mal. Ao Senhor confiamos todos os corações
que sofrem e esperam a verdadeira paz que só Ele pode dar. Confiemos n’Ele e
abramos-Lhe o nosso coração! Só Ele faz novas todas as coisas (cf. Ap 21,
5)!
Feliz Páscoa!
FONTE: Domingo de Páscoa "Ressurreição do Senhor" – Bênção "Urbi et Orbi", 2026





